terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Ecos da guerra fria ?

Tese de Atentado Volta a Vingar em Relatório Sobre Camarate
Nota: Um dos cenários já levantados para o motivo, foi o assunto Irão-Contra, a venda de armas para o Irão para financiar os contra na Nicarágua. A guerra fria, o legado da aliança de Roosevelt e Churchill com Estaline e mais remotamente da Grande Guerra (porque criou as condições para a revolução comunista), como todas as guerras, foi o palco para muitas acções de intervencionismo dramáticamente desnecessárias (por muitas boas intenções que as motivem), e a Nicarágua foi uma delas. Quem sabe se até Portugal não acabou por pagar um preço demasiado alto.

Ucrania & The new cold war

PS: UE, EUA, Russia e China parecem estar agora condenados a entrar no mesmo jogo geo-estratégico entre Impérios que precedeu a Grande Guerra e onde todos foram prejudicados. Antes eram os recursos inexplorados, agora, é a ideia que empurrar a democracia (ou uma noção de democracia) por revoluções ou pressões geo-estratégicas e até militares, é do interesse do Ocidente (para uns) ou um bem em si mesmo (idealistas de esquerda e agora também à direita). E não existe sentimento de prudência nem história que pare esta tendência. O mais provável é um dia virmos a ficar todos a perder novamente.

"It isn't just the Islamic world that the promoters of a "war of civilizations" are targeting: Russia, too, is in the sights of the War Party, as I have pointed out in this space before. As the epicenter of the Orthodox Christian Slavic civilization, Russia finds itself under attack on several fronts: not only in the Ukraine but also in Chechnya, where American neoconservatives have taken up the cause of al-Qaeda-linked "freedom fighters" and denounced Russian President Vladimir Putin as an aspiring "dictator."

The West turned against Putin the moment he moved against the Russian "oligarchs" – former Communist party insiders who used their influence in the waning Soviet order to loot "collectively-owned" state industries, including major industrial concerns and infrastructure, stripping the place bare and secreting their ill-gotten gains abroad. That this was done under the rubric of "privatization" defeated the idea of free market liberalism in Russia, and paved the way for the rise of Putin, who was lifted up into the seat of power on the strength of a wave of resentment against the oligarchs' massive theft.

The oligarchs, however, who had by this time legitimized their fortunes by laundering the stolen money through investment in new enterprises, fought back, and were soon joined by their Western allies and paid publicity agents.

In the West, the reaction to Putin's new assertiveness was immediate: a campaign of the sort that preceded the demonization and destruction of Saddam Hussein and Manuel Noriega immediately commenced in the Western media, with neoconservatives of Krauthammer's ilk leading the charge. George W. Bush echoed their war cries, albeit faintly, when he voiced his "concerns" about the future of "democracy" in Russia: simultaneously, an open "letter of the 100" to Putin was sponsored by the Project for a New American Century and was signed by an agglomeration of the aggrieved, from militant neocons to assorted "progressives" (i.e. warmongers of a leftish hue). The letter basically condemned Putin and called for a new cold war confrontation with the "threat" to democracy emanating from the Kremlin.
(...)
Krauthammer, the Clausewitz and the Napoleon of the armchair generals, can't help but gloat:

"
You almost have to feel sorry for the Russians. (I stress almost.) In the course of one generation, they have lost one of the greatest empires in history: first their Third World dependencies, stretching at one point from Nicaragua to Angola to Indochina; then their East European outer empire, now swallowed by NATO and the European Union; and then their inner empire of Soviet republics.

"The Muslim '-stans' are slowly drifting out of reach. The Baltic republics are already in NATO. The Transcaucasian region is unstable and bloody. All Russia has left are the Slavic republics. Belarus is effectively a Russian colony. But the great prize is Ukraine, for reasons of strategy (Crimea), history (Kiev is considered by Russians to be the cradle of Slavic civilization) and identity (the eastern part is Russian Orthodox and Russian-speaking)
."

This is great news for those civilizational warriors who want to take on Eastern Orthodoxy, as well as Islam
(...)
Putin is right to fear NATO expansion. Perhaps he recalls the assurances of U.S. Secretary of State James Baker and German foreign minister Hans Dietrich Genscher at a high level meeting in Moscow on the subject of German reunification, cited by Russia scholar Susan Eisenhower:

"[Genscher] promoted a 'no expansion of NATO' concept, an idea that Baker, too, had advanced. It was at the February meeting that the key words were spoken, words that are still a source of debate. If a unified Germany was anchored in NATO, Secretary Baker said to Gorbachev, 'NATO's jurisdiction or forces would not move eastward.'

"Apparently, Gorbachev was receptive to that assurance and emphasized that 'any extension of the zone of NATO is unacceptable.'

"'I agree,' Baker said. "

Oh well. So much for that agreement.

Now that the West is penetrating Ukraine, and talking openly about the inability of Eastern countries – including Russia – to rise to the level of machine politics in Chicago, or Brooklyn, New York, Putin has reason to regret Gorbachev's decision, or at least remember it in anger: Georgia, too, is slated for NATO membership, and the rebellious Russian-speaking semi-autonomous republics, such as Abkhazia, and Ossetia, are trouble spots just begging for NATO intervention – as would the eastern region of Ukraine, which threatens to secede if the Yushchenko forces triumph.

The United States, via the National Endowment for Democracy, has poured millions into the funding, training, and logistics of the Yushchenko organization that has managed to shut down Kiev and hold the government hostage – and they expect their investment to pay off in the military, political, and economic isolation of Russia.

Putin is hated by Western elites, not because he aspires to be a dictator, but because he is defiant in the face of this all-out assault. He destroyed the power of the Russian oligarchs, and aligned himself with the wrong oligarchical faction in Ukraine: Ms. Timoshenko, the former Ukrainian "gas princess," and her allies will profit enormously from an alliance with the West. The Odessa-Brody oil pipeline will start flowing, along with plenty of U.S. government subsidies for this uneconomic project."
Justin Raimundo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

The Becker-Posner Blog

Novo link: The Becker-Posner Blog

Deixe D. João VI em paz!

O CAA do Blasfémias prossegue o seu irritante hábito de querer atingir o presidente Sampaio comparando-o a D. João VI, como se este monarca tivesse sido o que ele julga que Sampaio é. Homem, deixe-se disso e deixe a memória do rei em paz! D. João VI foi um grande rei: iniciou reformas liberalizantes ainda durante a regência, protegeu a comunidade judaica da capital, resistiu a Napoleão, fez o Brasil moderno, combateu tanto os absolutistas como os jacobinos e deixou aberta a estrada para uma solução constitucional liberal equilibrada (há quem ache que o filho, depois, "inventou" a Carta em poucos dias)...

The true fight

"Robert Nisbet pointed out in "The Quest for Community" that the true fight is not between the individual and the State--it's between voluntary organizations like churches, neighborhoods, families, etc. and the State.

They stand in-between the individual and the State, because no human being stands alone. It is the State's nature to destroy or absorb those things, leaving nothing in-between it and the individual.

But what happens when religion voluntarily supports the State and just as voluntarily becomes part of it? It will not destroyed, but corrupted." Via LRCBlog

PS: as primeiras entidades a desaparecerem foram todas as fontes de direito alternativas existentes na sociedade civil: o direito eclesiástico, o direito das ordens profissionais (estabelecidas sem a legitimização monopolista a nivel nacional do estado moderno), o direito da cidade, o direito mercantil, o direito feudal, o direito da familia, o direito do rei e das cortes, etc.

Resposta ao "Cartas de Londres"

Caríssimo Bruno, eu não sou particular defensor deste governo nem defendi que ele fosse particular garante da "estabilidade". O que disse foi que a nomeação de Santana Lopes há quatro meses pressupôs que o Presidente considerasse legítima a passagem de poder de Durão para Santana; e que, entretanto, se manteve uma situação parlamentar de apoio maioritário a esse governo que torna difícil uma justificação forte da dissolução. É que a Assembleia da República tem legitimidade própria (quatro anos, lembras-te?) e o uso da dissolução deve estar, por isso, muito bem fundamentado. Pode ser que o Presidente o fundamente bem, mas eu só exprimi dúvidas... (aliás, gostaria que passasses os olhos sobre a minha troca de opiniões com o Miguel Noronha sobre como nos devemos pronunciar sobre a atitude do Presidente).

Quanto à União Europeia e à união dinástica ibérica (que era noutro post, Bruno, era noutro post...), as diferenças não são tantas como dizes: em 1580 também houve muitos portugueses que aceitaram a união e a perda de soberania, a qual foi, como sabes, legitimada em Cortes (aliás, com mais garantias da parte de Filipe II do que aquelas que a "Constituição" da U.E. nos dá). Mas, claro, como agora o poder ao qual nos entregamos é democrático, tu não vês perigo nenhum! É aí que eu acho que o teu "liberalismo" falha...

P.S. Mais uma coisa: se o actual governo é responsável por tentativas de pressão junto dos media, e se o Presidente tem conhecimento disso, deveria dizê-lo claramente. No caso de Marcelo Rebelo de Sousa não é para mim claro o que aconteceu: foi "zelo" da administração da TVI porque esperava decisões importantes do governo ou foi o governo a pressionar com essas decisões? Ou foi outra coisa? Aparentemente, estás na posse de inside information que poderia dar um bom furo jornalístico (estás à espera de quê?). Quanto à RTP, até onde consigo perceber, foi uma questiúncula interna; porque o que andavam José Rodrigues dos Santos e cia. a fazer de prejudicial ao governo, que eu nunca vi? Até um problema técnico num episódio do "Contra-Informação" foi visto como uma manobra do governo... (isto não será demasiada especulação?) Mas quanto a essas pressões, há uma solução fácil: privatize-se a PT, a RTP, a RDP e tire-se de facto aos governantes qualquer possibilidade de terem tentações.

Re: Rove Unleashed

Via Blasfémias: On domestic policy, Rove has a theme at the ready: "the ownership society" he says the president wants to build. It's a bland phrase, but the ideas behind it are hardly status quo. One is to consider abolishing the income-tax system, replacing "progressive" (meaning graduated) rates with a flat tax or even a national sales tax or value-added tax. Another is to rechannel massive flows of tax money from Social Security to private savings accounts and into expanded medical savings accounts. Yet another is a crusade Bush and Rove have been pursuing since Texas: a national cap on damage awards in lawsuits.
(1) Substituir o Imposto sobre Rendimento por um IVA não seria nenhuma boa nova. Só existem dois caminhos positivos: diminuir a carga fiscal geral, e mantendo-a, descentralizar a capacidade de decidir sobre a matéria fiscal (do Estado Federal para os Estados, dos Estados para os Municipios, etc).

(2) A Segurança Social no capitulo das reformas deve passar a ter um tecto máximo (de reformas e de descontos) que pode depois ir diminuindo gradualmente, e assim aumentando o rendimento liquido disponivel das familias para poupança e/ou consumo. Isso faria com que gradualmente os "descontos" (imposto transferido para reformados) pudessem ir diminuindo e sem quebra de compromissos nem aumento da dívida pública, e satisfazer os sociais-democratas de esquerda e direita porque mantém o sistema para as "camadas mais desfavorecidas".

A transferência pura e simples dos "descontos" para contas privadas, previsivelmente ultra-regulamentadas e sempre disponiveis para futuras emergências públicas e reviravoltas politicas, nada faz para diminuir o peso do centralismo estatista sobre as nossa vidas.

O subsídio de desemprego também tem um tecto. Trata-se de fazer o mesmo em relação às reformas, porque não faz sentido a presença do Estado (mesmo dentro de uma doutrina redistributiva) na poupança que ultrapassa um determinado limiar.

(3) Quanto ao "national cap on damage awards in lawsuits." dificilmente posso concordar que se resolva um problema, com um edital legislativo nacional (não devia ser "federal"?) que ultrapassa os tribunais. Talvez o problema esteja ao nivel da liberdade contratual entre o vendedor de produtos e o comprador, onde outro tipo de intervencionismo favorece os consumidores.

domingo, 5 de dezembro de 2004

José Manuel Fernandes ataca Napoleão

...que quis acabar com a Velha Europa e estabelecer uma Nova Ordem que quis estender ao Médio Oriente. E fala do "Código Civil ainda hoje celebrado em certos meios jurídicos", como se todo o Estado Moderno não tenha sido, no fundo, o triunfo de Napoleão (ainda hoje, pormenores como as restrições ao livre estabelecimento das heranças - e que acabou com o costume de preservar num único herdeiro o património da família - são celebrados e mantidos).

Fala de "o último general que levou os seus exércitos à vitória - a partir de então a França não ganhou sozinha ou perdeu mesmo todas as guerras em que se envolveu, desde a de 1871 com a Prússia à da Argélia, passando pelas duas Guerras Mundiais e pela Indochina - ajuda a compreender o que é hoje aquele país e em que memórias se alicerça. ", mas nenhuma outra nação assumiu tão prontamente conflitos contra a Prússia e a Alemanha. Ainda assim, concordo que de certa forma se possa afirmar que a França (como todos os outros) perderam quer a Primeira (para a Revolução Soviética) quer a Segunda Guerra (para Estaline) para o comunismo, incluindo a indochina (para o vietname comunista, não que mais uma vez não tenham sido ajudados...não sabemos é se nessa como em todas as outras, mais valia terem de facto ficado realmente sozinhos, porque naquela em que o ficaram - contra a Prússia - o maior mal que aconteceu foi a federalização - essa grande realização política - da Alemanha).


Mas o fim das monarquias europeias representou a vitória tardia de Napoleão coroada agora com o iluminismo pro-federal europeu e a sua constituição social-democrata e que bem no fundo, tem como outra referência esse grande construtor do grande estado-supra-estados que foi Lincoln (que por acaso também tem acusações de "censura, as prisões arbitrárias, a tortura e as execuções" ) e ambos acabaram por usar a igualdade para legitimar a força usada) e que acabou com o espirito original da Revolução Americana tão bem expressa nos Artigo da Confederação (Article II. Each state retains its sovereignty, freedom, and independence, and every power, jurisdiction, and right, which is not by this Confederation expressly delegated to the United States, in Congress assembled.

Ainda aproveita para fazer a comparação com o movimento independentista americano "Washington é respeitado como o general da Guerra da Independência" (que na linguagem de hoje poderia ser o chefe terrorista e separatista fortemente apoiado pelos franceses...)
e acusa Napoleão de querer ser o próprio o juiz que determina quando "é preciso impor aos homens o Governo que eles desejam" o que me faz lembrar a sua outra máxima ao "libertar" o norte da Itália da influência do império austriaco: "Vamos trazer-vos a liberdade quer vocês queiram ou não".


Tudo isso está muito bem, incluindo a areferência ao " pouco respeito que tinha pela vida dos soldados que comandava" (se bem que mais tarde, no século 20, os governantes de todos os quadrantes perderam o respeito pelas vidas dos civis ), mas será que se aprendeu alguma coisa?

sábado, 4 de dezembro de 2004

Ucrânia

O internacionalismo Politicamente Correcto continua a fazer das suas.

Um dos lados é mau e o apoio de moscovo é sinal do perigo do imperialismo russo, e outro é bom e espontâneo e se existem (não confirmo nem desminto), ajudas subterrâneas do ocidente é por uma boa causa. A vida é tão simples assim...

Como diz John Laughland no
Spectator, agora no meio de uma polémica, porque apontando para os problemas do "intervencionismo humanitário" e fazendo por descobrir o que se passa no meio de nevoeiro ideológico de internacionalismo, é acusado de apoiar os ditadores deste mundo (desde que o neoconservatismo de esquerda e direita tomou a liderança passei a relembrar os anos quentes a seguir ao 25 de Abril, com as acusações de "fascista" para quem tinha dois carros, ou um, ou "whatever". Agora são todos os desconfiados do internacionalismo), e isto porque também foi critico da coligação Clinton-Nato-esquerda-direita pelo bombardeamento da Servia e a entrega do Kosovo aos Freedom Fighters islamico -terroristas-Bin-Laden-connected do KLA:

"The leaden skies of Ukraine are distant and seem unreal, even though I had been under them only a few days previously. I begin to wonder whether Jean Baudrillard was right that the Gulf war never took place: when the West decides to sponsor the overthrow of a government by means of a ‘popular revolution’, representation really does become reality. For days, the TV is flooded with images of ‘the people’, while the even larger demonstrations on the other side are hardly shown. The adjective ‘Orwellian’ seems lame when I hear a reporter explain that the pro-Yanukovich demonstrators have a hopelessly statist Soviet mentality because, in the absence of any instructions as to what to do, they wander aimlessly around the streets, while the pro-Yushchenko demonstrations are extremely professional and well organised, and this shows their genuine spontaneity. "

Adicionalmente responde ao seu atacante
David Aaronovitch qu eescreveu "PR man to Europe's nastiest regimes":

"...But I wonder if Aaronovitch's Googling led him to use as a source an article entitled "Can a lobbyist for dictators work as a journalist?", a recently posted attack on me which is almost identical to his own. The home page, Ukrainian Archive, which has links to all the western-backed "pro-democracy" groups in Ukraine itself, also carries virulently antisemitic articles about the Jewish proclivity for rape, and about how the gas chambers at Auschwitz could not have existed. If I am being simultaneously attacked by a former communist who now supports George Bush's wars, and by raving Jew-baiting Ukrainian nationalists, I must be doing something right. John Laughland"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

A dissolução da ameaça misteriosa (II)

A dissolução anunciada conduz a algumas reflexões sobre o momento político actual e, em concreto, sobre os partidos da maioria. Antes de mais, é bom notar que, desde 2002, foi do PSD que vieram sempre todas as ameaças de instabilidade. Após as eleições, Durão Barroso, contrafeito, percebeu que não podia construir uma solução governativa sólida sem o apoio parlamentar do CDS e que, nesse cenário, o melhor era responsabilizar o parceiro de coligação, dando-lhe participação no governo. Não fosse o líder do CDS ser tentado a ter um pé no governo e outro na oposição…

Mas o CDS vestiu por inteiro o papel governamental e foi leal até ao tutano, o que forçou os desestabilizadores da oposição a adoptarem a estratégia de “picar” Durão Barroso e a velha guarda cavaquista do PSD com insinuações de que era o dr. Paulo Portas quem “marcava a agenda política” do governo e da maioria. Ao contrário dos impressionáveis do PSD, Durão não se impressionou com tais insinuações, que voltaram a ser feitas quando Santana Lopes lhe sucedeu. Este dava mostras de estar a seguir a estratégia de Durão, de ignorar essas tentativas de criação de desconfiança entre os dois partidos, que sempre funcionaram muito bem entre os cavaquistas que têm um ódio de estimação por Portas. O próprio oráculo laranja, leia-se o Prof. Cavaco Silva, que nunca se atirara às canelas de Durão, aproveitou a maior fraqueza de Santana para desferir à coligação um ataque que nunca os seus fiéis saudosistas se haviam atrevido a fazer: aparentemente e no seu discurso, passe a imodéstia, o Prof. Cavaco é de uma colheita de “bons políticos” que não suporta os “maus políticos” (leia-se, Santana e Portas). Talvez por uma questão geracional, tenho alguma dificuldade de seguir o raciocínio de Cavaco e de considerar o seu legado político assim tão brilhante.

Resta saber o que irão laranjas como ele fazer em relação à liderança legitimada no último congresso do PSD (Santana): estiveram contra este governo e vão apoiar Santana como líder em campanha? Ou vão continuar a criticar nas bancadas, contribuindo para um desaire eleitoral do PSD, de que serão também responsáveis? São demasiadas incógnitas, que ajudam a perceber o acerto das declarações de ontem do dr. Paulo Portas, marcando prudentemente a estratégia própria do CDS e mostrando que não está à espera deste PSD para preparar os próximos tempos.

Como frisou Portas, o CDS pode apresentar-se como partido que esteve nestes últimos dois anos do lado da estabilidade com actos (já o PSD e a velha guarda cavaquista…); pode apresentar obra feita em pelo menos dois ministérios (Segurança Social e Defesa) e pode aparecer unido nas próximas eleições. A conjuntura é, pois, favorável a que o CDS se apresente em listas próprias, o que é a melhor opção para ter bem marcado o seu terreno político. Ir à boleia do PSD foi sempre o que de pior podia acontecer ao CDS e viu-se, em 2002, numa conjuntura não mais favorável que a actual em termos de opinião publica(da), que o CDS não só se aguentou como fez passar por si a solução política do pós-guterrismo. Tinha uns incontornáveis 8,8% ganhos nas urnas e não em reuniões de directórios partidários pré-coligados.

O “grito de Ipiranga” de Portas, ontem, revela um político astuto, com capacidade de responder com rapidez a desafios como o actual. As suas palavras revelam também um líder que sabe o que pensa e o que quer, de uma forma que nunca se viu nos “bons políticos” de há dez anos… Disse, sensatamente, que o compromisso de estar no governo o levou a moderar determinadas opções e linhas doutrinárias e prometeu, agora que vai ficar “livre”, voltar a pôr acento na identidade conservadora e liberal do CDS. É disso que precisamos… Salvo algum deslize surpreendente, parece-me que ontem estive a ver na televisão o melhor político desta geração.

P.S. Permita-se-me um post scriptum sobre a questão do orçamento. Como vai ser? O Presidente quer dissolver para pôr fim à experiência deste governo. Ora, se o governo não sabe governar e o orçamento é a arquitectura da acção do governo, o Presidente não vai com certeza promulgar o orçamento de um governo tão mau, não é assim? Ou será que, para não vivermos em regime de duodécimos, vamos ter a situação bizarra de uma dissolução e de um orçamento saído do que foi dissolvido? Mas, então, como justificar a dissolução?

A dissolução da ameaça misteriosa (I)

Há quatro meses, quando empossou o actual governo, o presidente Sampaio elaborou uma explicação constitucionalmente exemplar dessa decisão. A dissolução da Assembleia da República, que o Palácio de Belém anunciou esta semana, de forma a pôr fim ao actual governo, dificilmente poderá basear-se em argumentos tão sólidos (pelo menos, do ponto de vista constitucional, que é o que me interessa). Não nego que o presidente tenha capacidade constitucional e “legitimidade” para dissolver agora o parlamento. É indiscutível que tem ambas as coisas. É também indiscutível para mim que o presidente não deve ser atacado por esta sua decisão, por muito que se discorde dela. Fez uso daquilo a que na boa doutrina se chama prerrogativa e, se aceitamos que esta exista (como eu aceito), não há lugar a ataques. God save the President… (como legalista que sou, no máximo serei parte da sua loyal opposition).

Mas o que aconteceu nestes quatro meses para se chegar à dissolução? Para lá de algumas gaffes de membros do governo, da guerra que alguns membros do PSD fizeram e fazem a Santana Lopes e das declarações de respectáveis has been do nosso mundo político, o que aconteceu de extraordinário, de perigoso, no País? Há realmente uma ameaça, nas palavras da Constituição, ao “regular funcionamento das instituições” do Estado? Será que descobrimos agora que Portugal nunca teve um governo gaffeur, um partido no poder com vozes descontentes e contrariadas e declarações de “senadores” a dizerem que no tempo deles é que era bom? E que a ausência de tudo isso no passado torna este governo particularmente impróprio para os nossos hábitos políticos?

Estas questões não são pouco importantes quando existe no parlamento agora dissolvido uma maioria que apoia o actual governo e quando o líder do maior partido da coligação foi recentemente a votos num congresso do seu partido e, apesar de algumas vozes discordantes que não passaram aos actos, ganhou esmagadoramente o apoio dos militantes para prosseguir no rumo actual até ao fim da legislatura. Que me lembre, uma dissolução nestes termos só aconteceu em 1983, mas era então claro que a coligação dessa época estava mais dividida e o governo num estado parecido com o de Guterres em 2002 (isto é, mortinho por ser dispensado da pesadíssima tarefa de continuar em funções). Por mais impróprio que a oposição de esquerda (partidos e personalidades) e as vozes discordantes do PSD achem o actual governo, a verdade é que tanto este como os grupos parlamentares que o apoiam estavam decididos em prosseguir até ao fim da legislatura.

O precedente assim criado com a decisão presidencial desta semana é preocupante. No imediato, pode dar a ideia que o Presidente estava à procura de pretextos para tomar a decisão que apenas a consciência o impediu de tomar há quatro meses. Para a posteridade, o que é mais grave, pode ficar precisamente legitimada a deriva plebiscitária que Sampaio dizia há quatro meses dever-se evitar a todo o custo. Ou então, pode ser que exista alguma ameaça real ao “regular funcionamento das instituições” que ainda não seja do conhecimento público.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

What's Right vs. What Works

(via o Venerável Irmão Miguel Noronha)

Debate entre Charles Murray, David Friedman, David Boaz e R.W. Bradford.

A primeira parte do debate está aqui: Does Freedom Mean Anarchy?

terça-feira, 30 de novembro de 2004

O 1.º de Dezembro é nosso!

O movimento do 1.º de Dezembro de 1640, que o feriado de amanhã comemora, não foi um “movimento nacionalista”. Como os historiadores actuais reconhecem (por exemplo, António Manuel Hespanha), tratou-se de um movimento que tinha o propósito de restaurar o “bom governo”, isto é, as prerrogativas próprias de órgãos como as Cortes portuguesas e os municípios, desrespeitadas pelos Habsburgos de Madrid. As leis, os hábitos políticos e as bolsas de autonomia daqueles órgãos estavam sob uma pressão fiscal e centralizadora que criou anticorpos em toda a sociedade e levou naturalmente à decisão da ruptura em 1640. Tratou-se de um MOVIMENTO CONSTITUCIONAL porque era as liberdades tradicionais o que se pretendia restaurar. O que os Restauradores realizaram nessa “manhã pura e alegre” é, pois, património dos liberais portugueses, como os nossos antecessores do século XIX reconheceram sem complexos. A restauração da soberania da Coroa portuguesa foi o instrumento necessário para repelir as intromissões estranhas e espoliadoras de quem nos queria governar à distância. Essa distância, como os Portugueses da época descobriram, é incompatível com o “bom governo”. É por isso que o 1.º de Dezembro é talvez o nosso feriado mais actual e cheio de sentido.

Soberania e Centralização

"Libertarians, Rothbard stressed in this connection, must be opposed, as are traditional conservatives (but unlike social democrats, neo-conservatives, and left-libertarians), on principled grounds to any and all centralization of state power, even and especially if such centralization involves a correct judgment (such as that abortion should be legal, or that taxes should be abolished).

It would be anti-libertarian, for instance, to appeal to the United Nations to order the breakup of a taxi-monopoly in Houston, or to the U.S. government to order Utah to abolish its state-certification requirement for teachers, because in doing so one would have illegitimately granted these state agencies jurisdiction over property that they plainly do not own (but others do): not only Houston or Utah, but every city in the world and every state in the U.S. And while every state, small or large, violates the rights of private-property owners and must be feared and combated, large central states violate more people's rights and must be feared even more. They do not come into existence ab ooa, but are the outgrowth of a process of eliminative competition among originally numerous independent small local states. Central states, and ultimately a single world state, represent the successful expansion and concentration of state power, i.e., of evil, and must accordingly be regarded as especially dangerous.

Hence, a libertarian, as his second-best solution, must always discriminate in favor of local and against central government, and he must always try to correct injustices at the level and location where they occur rather than empowering some higher (more centralized) level of government to rectify a local injustice."

INTRODUCTION By Hans-Hermann Hoppe to "Ethics of Liberty" Murray N. Rothbard

Lei

"As reason tells us, all are born thus naturally equal, with an equal right to their persons, so also with an equal right to their preservation . . . and every man having a property in his own person, the labour of his body and the work of his hands are properly his own, to which no one has right but himself; it will therefore follow that when he removes anything out of the state that nature has provided and left it in, he has mixed his labour with it, and joined something to it that is his own, and thereby makes it his property. . . . Thus every man having a natural right to (or being proprietor of) his own person and his own actions and labour, which we call property, it certainly follows, that no man can have a right to the person or property of another: And if every man has a right to his person and property; he has also a right to defend them . . . and so has a right of punishing all insults upon his person and property."

Rev. Elisha Williams (1744)

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

Conservative Libertarianism

“Self-Ownership, Abortion, and the Rights of Children: Toward a More Conservative Libertarianism” Edward Feser. Journal of Libertarian Studies - (Summer 2004)

Summary: Libertarians frequently ground their arguments in self-ownership and natural rights. Critics claim that such a starting point leads to a libertine (not merely libertarian) ethos, making any political alliance between libertarians and conservatives philosophically inconsistent. However, Feser claims the opposite: self-ownership is not only not inconsistent with moral conservatism, it actually entails a kind of moral conservatism. Thus, he argues that libertarians who reject moral conservatism are actually violating their own fundamentals.

domingo, 28 de novembro de 2004

Albert Jay Nock

Apelidado de "Forgotten Man of the Right" e "a man who helped shape the Right's intellectual response to the triumph of FDR's welfare-warfare State." e numa breve caracterização:

"To follow Nock, what traits must a man of the Right have?

He must be both fiercely independent and believe in the power of social authority; he must love tradition but hate the State and everything it does; he must believe in radical freedom while never doubting the immutability of human nature and natural laws; he must be anti-materialist in his own life while defending economic freedom without compromise; he must be an elitist and anti-democrat yet despise elites who hold illicit power; and he must be realistic about the dim prospects for change while still retaining a strong sense of hope and enthusiasm for life. "

Algumas passagens do seu texto Our Enemy, the State:

* The historical method, moreover, establishes the important fact that, as in the case of tabetic or parasitic diseases, the depletion of social power by the State can not be checked after a certain point of progress is passed. History does not show an instance where, once beyond this point, this depletion has not ended in a complete and permanent collapse.

* The common view of Mr. Jefferson as a doctrinaire believer in the stark principle of "states' rights" is most incompetent and misleading. He believed in states' rights, assuredly, but he went much farther; states' rights were only an incident in his general system of political organization. He believed that the ultimate political unit, the repository and source of political authority and initiative, should be the smallest unit; not the federal unit, state unit or county unit, but the township, or, as he called it, the "ward." The township, and the township only, should determine the delegation of power upwards to the county, the state, and the federal units. His system of extreme decentralization is interesting and perhaps worth a moment's examination, because if the idea of the State is ever displaced by the idea of government, it seems probable that the practical expression of this idea would come out very nearly in that form.23

* The secret of freedom will be found in the individual "making himself the depository of the powers respecting himself, so far as he is competent to them, and delegating only what is beyond his competence, by a synthetical process, to higher and higher orders of functionaries, so as to trust fewer and fewer powers in proportion as the trustees become more and more oligarchical."

* Locke himself, whom we have seen putting the natural rights of property so high above those of life and liberty, was equally discriminating in his view of popular sovereignty. He was no believer in what he called "a numerous democracy," and did not contemplate a political organization that should countenance anything of the kind.27

Soberania

Eu concordo com CAA quando diz que "rui a. escreveu hoje uma das postas mais importantes do Blasfémias. Conseguiu sintetizar alguns dos princípios essenciais da visão liberal do mundo, fazendo a difícil transversalidade das várias correntes do liberalismo clássico ao pensamento libertário."

Vou comentar apenas: "...parece pouco liberal admitir, ainda que como hipótese, a saída de Portugal da União Europeia, justificada por eventuais «perdas de soberania». Isso representaria um indesejável regresso ao colbertismo, ao mercantilismo, em suma, ao nacionalismo económico."

1. Soberania não significa proteccionismo, mas sim a capacidade de auto-regulamentação e de definir autonomamente Lei.

2. É tão errado defender a soberania para implementar o nacionalismo económico como defender a perda de soberania para supostamente ficarmos protegidos do proteccionismo.

sábado, 27 de novembro de 2004

Utilidade Ordinal II

"Rothbard contributed two major advances beyondthe standards set by Mises’s Human Action.

First, Rothbard provided systematic clarification of the theory of marginal utility, and then advanced a new reconstruction of welfare economics and, entirely absent in Mises’s system, an economic theory of the state.

Building on the foundations of a strictly ordinalist interpretation of marginal utility laidout by Mises as early as 1912 in his Theory of Money and Credit,6 Rothbard explainedthat the word “marginal” in marginal utility does not refer to increments of utility (which would imply measurability), but rather to the utility of increments of goods (and thus has nothing to do with measurability).

The good to which utility is attached, and theincrements in its size, can be described in physical terms. The good and its incrementextend in space, and thus can be measured and counted as unitary quantitative addition.In distinct contrast, the utility attached to a physical good and its unitary physicalincrements is a purely intensive magnitude. It does not extend in space, and hence isimmeasurable and intractable by unitary counting and the rules of arithmetic.

Allattempts to construct a cardinal measure of utility are in vain. Qua intensive magnitude,utility can be treated only ordinally; that is, as a rank order on a one-dimensional individual preference scale (and every economic phenomenon, in particular monetary calculation and “objective” cost accounting, must ultimately be reducible to and explained as the simple outcome of ordinal individual rank order judgments).

Apart fromtheir placement on one-dimensional individual preference scales, no quantitativerelationship between different goods and different quantities of the same good exists. In particular, no such thing as total utility—conceived of as the addition or integration ofmarginal utilities—exists. Rather, “total” utility is the marginal utility of a larger-sized quantity of a good, and, Rothbard explained,

[t]here are, then two laws of utility, both following from the apodictic conditions ofhuman action: first, that given the size of a unit of a good, the (marginal) utility of eachunit decreases as the supply of units increases; second, that the (marginal) utility of alarger-sized unit is greater than the (marginal) utility of a smaller-sized unit. The first isthe law of diminishing marginal utility. The second has been called the law of increasingtotal utility. The relationship between the two laws and between the items considered inboth is purely one of rank, i.e., ordinal.

Graphically, Rothbard illustrated, the relationship can be represented thus:

Ranks in Value

-3 eggs

-2 eggs

-1 egg

-2nd egg

-3rd egg

The higher the ranking on this individual value scale for eggs, the higher the value. Bythe second law, 3 eggs are valued more highly then 2 eggs and 2 eggs more highly thanone. By the first law, the 2nd egg will be ranked below the first on the value scale, andthe 3rd below the 2nd.

No mathematical relationship exists between, for instance, the marginal utility of 3 eggs and the marginal utility of the 3rd egg except that the former is greater than the latter.

As Lionel Robbins, influenced by Wicksteed and Mises, had first brought home to mainstream economics, from the ordinal character of utility it follows logically that everyinter-personal as well as intra-personal comparison of utility must be regarded asimpossible (unscientific), and hence every social welfare proposal involving any suchcomparison is arbitrary.

While mainstream welfare economics was thrown into disarray upon full realization of this conclusion, Rothbard provided a radically new strictly ordinalist reconstruction of welfare economics based on the twin concepts of individual self-ownership and demonstrated preference."

MURRAY N. ROTHBARD:ECONOMICS, SCIENCE, AND LIBERTY By Hans-Hermann Hoppe

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Utilidade cardinal e ordinal

No pura economia cita-se um texto de William L. Anderson, do Mises Institute:

"...E, mais para o lado teórico: "Os economistas sabem, desde os primeiros dias da revolução marginalista, que é impossível fazer a comparação da utilidade interpessoal. Embora conceitos como "excedente do consumidor" e "perda de bem-estar social" possam ser apresentados na forma de gráficos, como ferramentas de ensino, não passam de ficções uma vez que o seu uso requer a medição da utilidade cardinal, e não apenas ordinal. Naturalmente, o uso da utilidade cardinal permite aos economistas apresentar a teoria económica em termos matemáticos através de cálculo multivariado, razão pela qual continua a ser usada como ferramenta explicativa, apesar de ser uma fraude."

E depois comenta:

"Enfim: teórico, ma non troppo. O Mises Institute está repleto desta tralha ideológica© que pouco adianta para o conhecimento científico mas, seguramente, ajuda à propagação da causa."

Olhe que não, olhe que não. É precisamente nesta questão que reside toda a questão da ciência económica e que faz da Escola Austríaca a única que a percebe e se dá ao trabalho de tirar as devidas consequências.

Se a utilidade é ordinal, o esforço quantitativo-econométrico que acabou por inundar a economia (ao ponto de se afirmar que qualquer outra abordagem no fundo "pouco adianta para o conhecimento científico") é em grande parte inútil.